Aventuras Cotidianas

19/09/2006

Speak Español.



02h10 da manhã. Estava sonhando. Sabia disso. Era um estádio de futebol. A torcida animada, agitando bandeiras e com apitos incessantes. O Brasil estava jogando e incrivelmente ganhando de um time com uniforme azul e branco. Um dos nossos jogadores disparou com a bola pelo campo, driblou um, outro, mais um e quando ia chutar para o gol...

TIC.TIC.TIC.TIC.

Ouvi um barulho no quarto. Fiquei com a sensação de gritar GOL entalada na garganta e substituída pelo arrepio percorrendo minha pele. Abri os olhos na escuridão. Meu corpo permanecia imóvel e embrulhado com o edredom até a cabeça. Senti uma brisa soprando meus pés. Estavam para fora. Puxei devagar para dentro, me encolhendo ainda mais. Minha mulher continuava dormindo como um anjo ao meu lado, atravessada na cama.

TIC.TIC.TIC.TIC.

Como por instinto, olhei para meu lado. Nada. Mas tinha algo, tinha alguém no quarto. Sentia uma nítida sensação de estar sendo observado. Puxei lentamente o edredom para baixo e levantei a cabeça olhando ao redor. Escuridão total. Silêncio. Provavelmente, um barulho fora da casa. Claro, era um galho batendo na janela.

TIC.TIC.TIC.TIC.

- Viu? Não é nada, Mack. Só um barulho lá fora. Volte a dormir! - ordenei para mim mesmo. Isso sempre acontecia. Quando ventava lá fora, a janela tremia ou a madeira rangia pela casa.

TIC.TIC. Cruucccc.

Gelei. Não era barulho de madeira. Não mesmo. Colei meu corpo junto da minha esposa procurando proteção. Seja o que estivesse no quarto, não teria como avançar pelas minhas costas. Um breu dominava o quarto. Não enxergava a um palmo de distância.

Pausadamente, estiquei meu braço pelo edredom até a escrivaninha. Senti a capa plástica do meu celular. A luz dele seria útil. Puxei o edredom, tendo um campo de visão maior ao lado da cama. Não podia me expor. Click. Abri o flat, deixando a luz azulada iluminar a lateral.

TIC.TIC.TIC.TIC.TIC.TIC.

Um vulto anão esverdeado correu rapidamente do canto em direção a porta. Minha mão tremeu com meu susto deixando o celular cair no chão. Tinha um invasor na minha casa.

- Oláaaa... - murmurei me encolhendo mais na minha mulher que começou a me empurrar com os braços e me chutar. Não dava. Rolei até a beirada da cama e tateei no chão encontrando o celular. Mirei a luz na porta e vi algo correndo da porta para o corredor. Não dava para ver nada além de uma sombra sinistra projetada na parede. Pensei em acordar minha mulher, mas ela não daria importância. Se ela não acreditou quando contei quem eram nossos novos vizinhos, imagine agora.

Tinha que agir sozinho. Segurei na beirada da cama e focalizei a luz embaixo. Tudo limpo. Coloquei os pés no chão e sai sentindo o vento frio. Peguei um cobertor e enrolei no corpo. Muitoooooo frio.

- Agora preciso de uma arma. Algo para me defender. - disse olhando ao redor e ouvindo minha mulher começar a roncar. Vida de casado. Ignorei o fato e vi o guarda-chuva no canto do quarto. Serviria por hora.

Aos poucos me aproximei da porta. Mantinha a luz do celular acesa. O indicador da bateria mostrava que me restava pouco tempo. Avancei pelo corredor vendo as duas portas abertas. A da esquerda era do quarto e a da direita, do banheiro. As duas sempre ficavam abertas e aquilo poderia ter entrando em qualquer uma. Olhei para o chão e vi marcas de barro apontando para ambos os lados.

Apontei o dedo e fiz a escolha:

- Une, duni, tê, salame, minguê, o sorvete é colorê, o escolhido foi você!! - disse apontando para o banheiro. Nova tentativa de escolha. - Fui na casa do tatu quem saiu foi tu! Quarto.

Encostei-me na parede e levantei o guarda-chuva, pronto para atacar. Parei perto do batente e coloquei minha mão por trás, sentindo o interruptor. O momento de surpresa estava a meu favor.

- Agora! - disse acendendo a luz e entrando no quarto com o guarda-chuva em riste. - Parado! - gritei olhando para o quarto vazio. Nada ali.

TIC.TIC.TIC. TIC.TIC.TIC. TIC.TIC.TIC.

Algo saiu do banheiro e passou correndo no corredor.

- Parado! - gritei saindo a tempo de ver um vulto esverdeado descendo as escadas. - O que era aquilo?

Continua na semana que vem!


Escrito por Mack às 21h05
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Aventuras Cotidianas

Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.

São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.

Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.

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