Aventuras Cotidianas

19/05/2006

Um Novo Vizinho Impossível!



- Isso! - comemorei batucando na mesa e olhando para a tela do monitor. A coluna ia se formando com as sensações reais de suspense. Aumentei o volume da trilha sonora para ajudar na concentração e no ritmo da escrita. Tudo precisava estar equilibrado.

Naquele exato momento, estava livre de preocupações. Nada me irritava. Nem os vizinhos, telefones ou barulhos externos. Nada. Deixava a música fluir pelo meu corpo para canalizar minhas sensações. Nenhum tipo de...

BBBBOMMMMMMMMMMMMMMM...

Travei meus dedos na hora de digitar C-A-C-E-T-E e me joguei embaixo da mesa. Meu coração entalou na minha garganta, dando a impressão de saltar pela boca. A música tocava enquanto trêmulo, tentava espiar para fora da mesa, olhando ao meu redor.

- Minha casa virou o porto de Santos? - indaguei ouvindo outro barulho de buzina ecoar na rua.

De quatro, engatinhei raspando meus joelhos contra o carpete em direção à janela e me encostei na parede. Com cuidado, abri a fresta da persiana vendo boquiaberto aquilo parado no meio da rua.

- O que é isso? - perguntei abismado. Um caminhão gigantesco carregando uma casa. Sim, é verdade. Uma casa inteira com janelas, varanda, a antena de televisão pendurada no telhado e ainda, pintada com um rosa salmão! Esfreguei os olhos. - Aonde eles vão colocar essa alegoria da Mangueira? Naquele terreno baldio?

Não dava para ver direito, mas tinha alguém coordenando tudo na frente do caminhão. Forcei a visão e tive uma nítida impressão de conhecer aquela silhueta um pouco arredondada e os gestos bruscos. Hummmm. Seja quem for, preciso ver isto de perto. Saí do escritório ouvindo a música sendo trocada para a trilha sonora do filme Missão Impossível. Nada mais apropriado.

TIMM-TIMM- TIMM-TIMM- TIMM-TIMM- TIMM- TIMM-TIMM- TIMM- TIMM-TIMM...TUUU-CHIIIIIIIIIIIIIIIII...

Parte 1. Preparação. Peguei meu boné promocional da quitanda do seu Junerus e meus óculos escuros para me disfarçar. Com pinta de ator americano, sabia que não podia sair pela porta da frente, por isso saí pela cozinha ouvindo a trilha sonora de fundo.

TANNNN-TAN-TAN- TAN-TANNNN-TAN-TAN- TAN-TANNNN-TAN-TAN- TAN-TANNNN-TAN-TAN- TAN- TANNNN-TRUUU-TRUUUU.

No quintal, desviava dos vasos da minha mulher, como se fossem armadilhas prontas para se auto-destruir em cinco segundos. Com minha perspicácia, observei o meu vizinho de muro, curioso (como eu) espiando pela janela do banheiro dele. O cabelo revirado não precisava de comentários. Acenei com um sorriso amarelo, movimentando os braços e sinalizando que faria uma corrida matinal. Ele não acreditou nisso e nem eu. Tudo bem. TLECCCCCKKK. Vaso derrubado.

- Hummmm... - gemi enquanto disfarçava que nada tinha acontecido. Mexi as pernas em aquecimento e saí em marcha pela calçada.

Os carros começavam a emparelhar atrás do caminhão, que folgado, estacionou na transversal ocupando toda a rua. Ninguém conseguia passar. Diversas mãos com dedos esticados para fora dos carros não pareciam fazer sinais de boas-vindas. Parte 2. Aproximação do inimigo.

TTTTTANNNN-TTTTTANNNN-TANNNN-TANNNN- TANNNN-TTTTTANNNN-TANNNN-TANNNN- TANNNN- TTTTTANNNN- TANNNN-TANNNN- TANNNN- TTTTTANNNN-NANNNNN.

Passando pelo caminhão, analisei atentamente as rodas. Estavam gastas, além de sujas, com muita poeira e barro. Com certeza, devem ter rodado muitos quilômetros para chegar ali. Daquela distância, reparei em um carro parado em frente do caminhão. Não dava para identificar o modelo, apenas que o carro não era da cidade, muito menos desse país.

- Pelo amor, de onde eles... - me calei cumprimentando um dos trabalhadores que passou ao meu lado. Relaxe Mack. Aos poucos, me aproximei para ver o modelo do carro. Só de olhar a placa, saberia de onde eram. Fácil. Avancei o último passo e fiquei imobilizado. Senti minha boca seca, as pernas fraquejarem e me apoiei no caminhão. Só consegui ler aquelas letras brancas brilhantes:

“A-R-G-E-N-T-I-N-A”

Aquilo era um pesadelo. A Argentina, em peso, estava me perseguindo. O que faltava? Feriado nacional das lacucarachas? Tentei me tranqüilizar enquanto me aproximava do carro. Não sei explicar, mas algo me era familiar. Já tinha visto aquele carro em algum lugar. Inspirei calmamente e olhei para a alegoria rosa salmão recém-colocada no lugar. Preciso me certificar. Quem sabe, poderia ser uma coincidência...

- Ou não... - concluí sozinho. Contornei o caminhão e parei. Fechei as mãos como dois binóculos para me certificar que o caminho estava livre. Ok. Parte 3. Identificação do objetivo.

TAN-NA-NOOOOOOOOOOOOOOO- TAN-NA-NOOOOOOOOOOOOOOO- TAN-NA-NOOOOOOOOOOOOOOO-TOOO-TOOO.

Como um gato furtivo, entrei pela lateral da casa, me espremendo entre o muro e a parede. Reduzi meu passo quando me aproximei do vão da janela. Tinha que tomar cuidado. Coloquei a mão no batente da janela, deixando minha visão acostumar com o ambiente. Tinha gente ali.

Tentei focalizar minha visão para ver quem era... Sim, era um umbigo peludo. Umbigo? Olhei para cima a ponto de ver um ser meio arredondado, cutucando o umbigo que aparecia entre a bermuda e a camiseta curta. Fiquei petrificado quando reconheci o dono daquele umbigo peludo. Sim, ele! O Dieguito! Sem pensar, aproximei da janela.

Tiiccccccc.

Merda. Bati o boné contra o vidro. Meu corpo gelou quando todos se viraram para a origem do barulho. Sai correndo em disparada pela rua antes que eles pudessem abrir a janela. Para casa. Agora!

TTTTTANNNN-TTTTTANNNN-TANNNN-TANNNN- TANNNN-TTTTTANNNN-TANNNN-TANNNN- TANNNN- TTTTTANNNN- TANNNN-TANNNN- TANNNN- TTTTTANNNN-NANNNNN-

Cheguei em casa voando e tranquei tudo. Portas, janelas, gavetas, tudo! Esbaforido, apoiei na parede tentando racionar. Como ele tinha descoberto? O que ele fazia ali?

TUC-TUC-TUC.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho na porta da frente. Vi a sombra de alguém aparecendo e sumindo. Corri e me espremi no olho mágico tentando focalizar o suspeito. Nada. Abri uma fresta minúscula e vi algo brilhando no chão. Reconheci na hora e não acreditei...

- Minha carteira...

TANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNN…



- Para compreender o final, ler a crônica “O Castigo de Lindy”.

Escrito por Mack às 17h31
[]


16/05/2006

Cidade Sitiada.



13h30. Caminhava tranqüilamente ouvindo uma música com meus fones de ouvido na rua de comércio, em um dos bairros mais movimentados da minha cidade. Estava despreocupado com boatos que corriam pela manhã, devido à violência no final de semana. Ao meu lado, passavam pessoas apertando o passo para chegar a algum lugar que considerariam seguros nos próximos minutos. Não dei bola.

- Humf... - resmumguei sabendo que não valia a pena me amedrontar.

Um motoqueiro passou perto da calçada, falando para os lojistas começarem a fechar as portas. Uma imagem surreal começou a despontar na minha vista. As portas das lojas começaram a fechar em cascata em toda a rua. A falta de ônibus durante o dia, piorou a situação dos funcionários que iam sendo dispensados dos seus trabalhos pela sensação de insegurança em toda a cidade.

A música do rádio foi interrompida novamente pela oitava vez em menos de uma hora com um novo boletim aterrorizador, a respeito da situação de caos em vários bairros. Não era só o caos que dominava a cidade, mas uma facção fundada em presídio, organizada e com pretensões de veias políticas.

Novo boletim. Novos tiros. Novas informações sobre acontecimentos. Parei em frente uma loja de televisores com as grades fechadas e seus funcionários olhando temerosos para a rua. Fiquei preocupado. A imagem de ônibus sendo queimado, links ao vivo de pontos importantes mostrando shoppings sendo fechados e barricadas montadas em frente de delegacias e instituições públicas.

Correr. Realmente tinha que correr. Comecei a apressar meu passo no mesmo ritmo das pessoas ao meu redor. Todos olhavam para os lados com o medo espantado nos olhos, ficando longe das pessoas que deveriam nos defender, mas, os mesmo tempo, tentavam se proteger também e esperavam um atentado vindo de qualquer lugar.

No meio da tarde, sem transporte público, tive de começar a minha caminhada de volta para casa. A bolsa no meu peito, tentando criar uma proteção inútil. UÉÉÉ- UÉÉÉ- UÉÉÉ- UÉÉÉ- UÉÉÉ- UÉÉÉ- UÉÉÉ. Uma viatura policial passou voando na rua quase congestionada de carros que buzinavam sem parar. Não pensei duas vezes, era o momento para correr.

Cheguei em casa esbaforido, fechei a porta, girei o trinco duas vezes, passei a barra de proteção, cortinas e janelas fechadas. A casa em silêncio. Uma sirene ao fundo, mas nenhum barulho ao redor. Senti-me em uma cidade sitiada e liguei a televisão em busca de notícias do mundo exterior.

Os repórteres falando alto, mostrando imagens de guerra urbana. O telefone celular não funcionava direito. Algo estava acontecendo. Sim, não eram os bandidos que tinham parado os ataques, mas o problema era o terror psicológico realizado sem limites pela mídia em geral com imagens atrasadas e gerando o boato terrorista boca-a-boca pelas pessoas sem discernimento cultural. Lembrei da corrupção contaminada, da mentira contada descaradamente, da falta de autoridade dos governantes e inércia dos cidadãos de todo meu país.

Prensei a almofada contra meu peito e rezei em voz baixa, pedindo esperança.

Escrito por Mack às 11h05
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Aventuras Cotidianas

Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.

São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.

Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.

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- Speak Español - Parte 02
- Speak Español!
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- Cidade Sitiada.
- Sufoco!!!!
- A Véia...
- A você/ E O Castigo de Lindy!
- Meu Espírito Natalino!(no fim blog)
- Feriado na Praia com Vizinhos FIM
- A Unha
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