- SOBE! - gritei no corredor para a mulher que entrava no elevador. Ela fez uma cara de surda desentendida, mas para minha alegria e surpresa dela, consegui colocar a mão no sensor antes da porta fechar. Abri um largo sorriso de BEM FEITO e apertei o botão do 25º andar.
A entrada do prédio da minha editora parecia um inferno. Milhares de pessoas correndo e esbarrando uns nos outros. Pela placa na entrada, estavam realizando um congresso em algum auditório do prédio. Merda. Ela sabia que tinha pavor de multidões.
Entrei no elevador direto para o canto. Odiava ficar no centro com todos a minha volta. Sempre tinha a sensação de alguém estar analisando minha roupa amassada ou meu tênis sujo do final de semana. De jeito nenhum. Fiquei quieto no canto, apenas olhando para as pessoas absortas em seus pensamentos. Blullcccc. Meu estômago se mexeu...
- Hummmm... - olhei discretamente para minha barriga.
“Este não é o local apropriado...”
2º andar. O elevador parou, outras duas pessoas entraram. Pela minha contagem, estávamos em dez pessoas e a placa perto dos botões dizia que a capacidade máxima era de doze pessoas. Enquanto o elevador subia, sentia algo começando a descer pelo meu corpo. 4º andar. Mais duas pessoas. Limite total.
Tentei relaxar olhando para as pessoas ao redor: no canto, duas mulheres bonitas conversando animadamente sobre o feriado. Do meu lado, perto da porta, um executivo com a cara afundada em um jornal. No meio, o pior lugar, um motoboy com cheiro da rua usando fones de ouvido no volume máximo. Tampei o nariz. Na outra ponta, mais três rapazes paquerando somente o físico das mulheres e trocando piadinhas em voz alta. E na porta, um casal de senhoras tricotando sobre os netos e seus maridos conferindo o horário para almoço. Doze pessoas, incluindo eu no canto.
Blulllllccccc. Blulllllccccc.
Coloquei as duas mãos na barriga. Meu estômago não estava mexendo-se e sim, rosnando ferozmente. Fiquei vermelho e olhei para os lados. Se eu ouvi, alguém também ouviu. Nada. Todos continuavam impassíveis em seus mundos. Algo me dizia que não daria certo ficar ali dentro. 5º andar. A vontade aumentou quando o elevador parou e subiu de novo. Toda vez que sentia esse tranco piorava minha situação.
Discretamente, cruzei as pernas tentando fechar todas as possibilidades de soltar qualquer cheiro desagradável ali dentro. Respirei fundo, controlando meu corpo. Blulllllccccc. Blulllllccccc. Blulllllccccc.
Meu estômago não estava dando uma trégua. Já sei! Travei minha bunda para frente, imobilizando todos os músculos da barriga. Nada sairia sem a minha expressa vontade! Pressionei meu corpo contra o canto do elevador. As mulheres do meu lado olharam-me com receio, afastando o máximo possível. 6º andar.
Flipppppppppppp.
- Nãoooo! - gritei sentido um filete de ar começando a sair. Todos viraram para mim. Mack, uma desculpa rápido! - Vamos logo, vou perder minha reunião! - menti apontando para o display no oitavo andar. Todos concordaram com a demora. Ponto para o time da casa.
Dei uma abanada atrás para evitar concentrar o cheiro naquela área. Estava suando frio com aquela situação. Queria apenas um canto para mim. Um local para me livrar dessa vontade em paz. 9ºandar. Olhei para os botões e as pessoas começariam a descer nos andares. Com as paradas e impulsos, só um milagre para não acontecer nada. Travei minha bunda e prendi a respiração.
11º andar. Parada. O motoboy desceu e algo dentro de mim também. Não vai dar. 13ºandar. Parada. 14º andar. Droga. Parada no 15º andar. 16º andar. Parada. Chega!
Empurrei o casal de senhoras da minha frente, sentindo o filete de ar começando a sair. Seria um dos piores momentos da minha vida. Tinha certeza que o cheiro e o barulho seriam muito altos. Preciso de um local silencioso, sem ninguém. Flipppp. Corri no corredor como um alucinado. Olhei para uma porta no canto. Ninguém em volta. Flipppppp. Girei a maçaneta e fechei a porta atrás de mim sem ler a placa de identificação que dizia: AUDITÓRIO – PALCO.
Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.
São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.
Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.