A porta do elevador abriu seguida de uma gritaria de vozes desconexas e agudas. Tapei o ouvido. Abriram a porta do inferno? Era pior! Fiquei boquiaberto quando comprovei de quem eram as vozes. Sim, eram eles, os argentinos do 144.
Apoiei no corrimão para não cair quando a porta foi escancarada pelo filho mais velho, com uns treze anos. Com pinta e cabelo de quem iria para as praias argentinas, o aborrecente carregava uma enorme prancha embaixo dos braços. Mostrando sua habilidade como surfista, bateu a ponta da prancha na quina da parede. Tec. A primeira lasca na pintura nova.
Logos atrás, a Maria Joaquina (do seriado Carrossel) saiu gritando com uma voz estridente provando ser a gralha da família. Em uma mão, carregava uma sacola laranja com bonecas, roupas e maquiagem, e na outra, sua própria cadeira de praia versão super verde limão.
“Cadê meus óculos escuros?”
O filho mais novo que aparentava uns oito anos, achou que já estava na areia da praia. Saiu agachado com uma bóia na cintura e nos braços, arrastando um caminhão vermelho de bombeiro, gritando: BI-BIBI-BI-BI. Na carreta do caminhão, trazia o balde de plástico com as ferramentas necessárias para dragar toda a areia da praia. BI-BIBI-BI-BI.
Pensa que acabou? Não. O pior apareceu quando a senhora Perón saiu do elevador. A chiquitita versão Dercy Gonçalves apareceu com um chapéu daqueles usados no México, uma sacola da moda dos anos 30 e vestindo um maiô que lembrava a Casa Rosada com detalhes que não tenho coragem de descrever.
Respirei fundo, descendo os últimos degraus. Coloquei a mão no rosto para não ver quem seria o próximo integrante da família. Não consegui. Ali dentro, estava o culpado de tudo. A tradução literal, ou melhor, a versão beta do Maradona antes do spa. Ele estava abaixado de costas tentando pegar as cadeiras e os dois guarda-sóis, mostrando com a bermuda baixa o que ninguém queria ver. Nem eu.
- E o papagaio? - perguntei em voz baixa sem ser ouvido pelo argentino.
- !Que carajo! - xingou o Dieguito derrubando as cadeiras.
Fingi que não vi e apertei meu passo em direção ao portão. Desviei de toda tralha da família Carrossel, quase sendo derrubado com a prancha do aborrecente. Esbocei um sorriso de simpático vizinho segurando o portão metálico. Quando abri para sair, ouvi o último pedido que queria naquele momento.
-!Sostenga la puerta! - gritou a senhora Perón.
Pensei em fingir de surdo e seguir em frente, mas meu corpo travou e virou, abrindo a porta para o trio elétrico de tango. Nenhum deles agradeceu pela gentileza. Pensei em lembrá-los quando o Dieguito se aproximava, mas consegui dizer apenas uma palavra.
- Maradona... - comentei infelizmente em voz alta para meu horror.
- Sí, Diego Maradona. !El mejor jugador de fútbol del mundo! !Maradona! - gritou entusiasmado agitando as cadeiras e os guarda-sóis.
Esbocei outro sorriso de vizinho simpático e fechei o portão. A família tentava atravessar a rua e desviei saindo em disparada para as pessoas não pensarem que estávamos juntos. Finalmente cheguei na praia. Na areia. O guarda sol e a cadeira esperando por mim. Imaginei aquela cena a semana toda. Sentei tranqüilo, olhando para o mar à minha frente. Era esse momento de paz que buscava. Aquela brisa, a areia fofa nos meus pés e... Eles?
Não acreditei quando a família Carrossel resolveu armar sua barraca a poucos metros. Tinham a praia toda! Indignado, virei a cadeira de costas para manter o mar na frente. Agora sim. Paz.
- !Oye cabrón! - ouvi a voz do Dieguito chamando alguém - !Oye cabrón! !Cabrón!
Abri o livro, tentando me concentrar, quando senti os dedos duros e sujos de areia tocando meu ombro. Que merda! Quem era? O próprio Dieguito sorrindo para mim e gesticulando.
- Fotografia. !Venga! - pedindo-me para tirar uma foto da família Carrossel.
Fechei o livro pensando que não custaria nada tirar a foto e ir embora. A praia era imensa e caminharia até sumir da vista deles. Caminhei até lá para pegar a máquina da senhora Perón. Ela sem entender, fez um não com a mão.
- !No! Nosotros queremos una foto con usted... - respondeu apontando para o outro lado.
- !Acái, acá! - chamou o Dieguito.
Queria morrer. Não acreditei que iria tirar uma foto com a família Carrossel. Todos na praia paravam para olhar a cena e fiquei ao lado do Dieguito, pronto para esboçar um sorriso para a câmera. Tira logo, por favor!
- Uno, dos… - contou a senhora Perón.
Ela contava o número três quando senti uma mão dura apertando meu bumbum. Encolhi minha bunda e fiquei paralisado. Do meu lado, o Dieguito sorriu para mim, achando a coisa mais natural do mundo. Click. Era hora de correr.
Obs. Agradeço a ajuda de Gisele Ribeiro pelo espanhol.
Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.
São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.
Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.