Aventuras Cotidianas

01/11/2005

Tempo, Tempo e Tempo.



- É sério, Genésia! Segura a edição. Preciso de cinco minutos! - implorava para minha editora no telefone - Estou terminando, faltam só duas linhas...

Em resposta ao meu pedido, ouvi uma série de resmungos antes do som TU-TU-TU-TU da linha telefônica. Ótimo! Marquei no relógio cinco minutos. Não era o momento para reclamar, isto se somaria aos piores momentos daquele dia que iniciou às 02h07 da madrugada.

PLIM. Simples assim, que meus olhos abriram na escuridão do quarto. Ao meu lado, minha mulher continuava dormindo profundamente entre roncos e chutes marciais. A cena não era romântica, mas fazer o quê? A realidade do casamento é bem diferente do que me contaram..

Revirei pro outro lado, me encolhendo contra os golpes mortais. Fechei os olhos para tentar relaxar. Havia aprendido uma técnica de respiração com meu psicólogo. Pelo que lembrava, deveria inspirar em quatro segundos, parar em dois, expirar em quatro, parar em dois e manter essa contagem até sentir o corpo relaxar. Juro que tentei, mas na terceira tentativa, inspirava em oito, parava em três e expirava em dez segundos. Era praticamente uma bexiga vazando na cama.

Chega. Levantei da cama para o banheiro do quarto. Acendi a luz, sentindo a claridade fechar meus olhos e meu quadril batendo na pia.

“Haaaaaaaaaa...”

Gritei em silêncio com as mãos tapando a boca para não acordar minha mulher. O que não faria diferença com a altura do ronco dela. Abri o armário de remédios, passando o spray no roxo que se alastrava pela pele. Agora acordei de vez!

Desci as escadas em direção à cozinha. Já que perdi o sono, tinha de fazer algo útil. Não era cozinhar, mas aproveitar este tempo livre para escrever. Estava atrasado com a coluna que entregaria hoje, por volta das 09h00 da manhã. Contando o tempo que faltava, davam sete horas para bolar o tema, escrever, rever e pronto! Fácil, fácil.

Com a caneca de café ― pintada com uma girafa ―, sentei na frente do micro esperando aparecer à tela azul de entrada. Minutos depois, a tela em branco apareceu pronta para ser digitada. Coloquei uma música ambiente que ajudaria a mente se concentrar e estruturar a coluna.

KAABUMMMMMMMMMM.

O som do trovão fez a janela vibrar e minha bunda saltar cinco centímetros da cadeira. Com o susto virei, vendo as pequenas gotas transformando-se em milhares. Em segundos, a chuva virou uma verdadeira tempestade de verão.

- Este som é uma delícia para dormir... - comentei em voz alta com inveja da minha mulher - Vamos trabalhar!

Aos poucos, visualizei o tema da coluna e comecei a digitar freneticamente. Terminei a primeira frase antes de olhar para a tela e ver que as letras não apareceram. Mexi o mouse para a direita. Nada. Para a esquerda e a ampola continuava pensando. Droga. Travou!

Apertei as teclas com mais força. A cpu respondeu com um barulho estridente. Indignado, meti as duas mãos no teclado e o computador continuava impassível, como se estivesse rindo de mim. Não tive dúvidas, apertei o botão de reiniciar como se pudesse me vingar daquela risada invisível. Em segundos a tela azul de início apareceu novamente.

ZIPPPPPPPPPPPPPPPPP.

- Não é possível! - disse olhando para a luz, o som e o computador, tudo apagado. Black-out! - É brincadeira! ― resmunguei olhando para a tempestade que já não tinha nada de verão.

Lembrei das velas no armário da cozinha. Peguei algumas, deixando acesas em cima da mesa do escritório. Tudo bem. Se não tem computador, não tem problema. Vamos voltar à idade média do papel e caneta.

Separei um maço de folhas. Coloquei o título na folha, risquei de novo. Coloquei outro abaixo, ficou muito grande e estava fora de linha. Joguei o papel fora. Não daria certo, tinha de pensar antes de escrever, não podia sair escrevendo. Estava sem o recurso de apagar do teclado. Droga.

Sem escrever, deixei a ponta da caneta apoiada no papel enquanto pensava. A caneta marcou uma bolinha azul. Quem sabe podia tentar a respiração novamente?

― Não é possível ser mais fácil escrever no computador do que no papel! ― comentei olhando para o brilho da vela. Sentia-me hipnotizado em olhar para o movimento da chama e da cera queimando. Apoiei o rosto com as mãos, observando o crepitar do fogo. Era muito bonito e relaxante. Bocejei. Senti o peso das pálpebras fecharem meus olhos. ― Não vou dormir, só relaxar... um pouco. ― respondi enquanto apoiava a cabeça entre os braços sob a mesa. Pimba. Apaguei e dormi.

Sonhava alguma coisa, tinha certeza disso. Corria desesperadamente para algum lugar ou correndo de alguém. Não sei. De uma hora para outra, acordei sobressaltado com um barulho na porta de casa.

BUMMMMMMMM.

Meu rosto descolou do braço apoiado em cima da mesa. Um filete espesso de baba formava um desenho abstrato no papel molhado. Acho que dormi além da conta. Conferi o horário, ERAM 08h28! Senti as costas duras e o som do chuveiro no andar superior. Minha mulher acordou, e passei a noite babando.

Fui até a porta e conferi que o jornal do dia fora arremessado. Não tinha tempo. Corri para cozinha, joguei água no rosto e religuei o computador ― sim, a luz deve ter voltado em algum momento da noite. Faltava meia hora para entregar a coluna.

Em pouco tempo, digitava a todo vapor, dei um beijo rápido na esposa que estranhou que eu tivesse passado a noite fora da cama. Pela velocidade de meus dedos no teclado, ela entendeu o motivo. O telefone tocou na mesa, era a Genésia. Droga. Atendi sem ouvir ao menos um bom dia.

- É sério, Genésia! Segura a edição. Preciso de cinco minutos! - implorava para minha editora no telefone - Estou terminando, faltam só duas linhas...

Em resposta ao meu pedido, ouvi uma série de resmungos antes do som TU-TU-TU-TU da linha telefônica. Ótimo! Marquei no relógio cinco minutos que voaram. Faltavam três minutos. Precisava trocar aquela palavra. Chequei o dicionário, peguei um sinônimo. Agora, só reformular a frase para fazer sentido.

Trimmmmmmmm.

Cinco minutos passados. Faltava digitar a última palavra. Terminei!

Escrito por Mack às 08h11
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Aventuras Cotidianas

Relatam o conturbado dia-a-dia do escritor Mack, que publica uma coluna semanal online -tarefa simples que torna-se hilária com as situações do cotidiano relatadas por ele com suspense, aventura e comédia.

São personagens constantes de suas aventuras, Genésia, sua editora-chefe, Domitila, sua nova assistente, e Lindy, sua mulher. Junte-se a isso, o cachorro Buick e o futuro papagaio Speak. Sem falar dos pais que moram na cidade vizinha e o argentino Dieguito com sua família.

Torça, emocione-se e ria com as Aventuras Cotidianas, publicada toda quarta-feira.

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